
Neste Blog apresento um pouco de minha produção acadêmica, alguns trabalhos artísticos e de minha percepção do mundo. Os textos estão separados por temas como Filosofia, Literatura, Estética, Política e Teatro. São artigos, divagações poéticas, ensaios e opinião. Enfim, intento que este seja um canal para discussão de temas que dialoguem com minhas pesquisas, sobretudo, que seja um espaço para discutir e compartilhar ideias e materiais com alunos, professores e amigos da sabedoria.
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9.3.09
2.3.09
Sobre o Cara Preta, da Cia. Maldita
A origem do mal, o convívio e nossa relação com esse oposto maniqueísta, quase nunca são temas de nossas reflexões. Tudo parece tão cor de rosa, a arte tem sido tão cor de rosa e tem usado de uma paleta de cores tão floral que diz de um mundo unilateral, visto de um lugarzinho só, o lugar do hipócrita, escondido com seu potezinho de ouro numa das pontas do arco-íris.
Mas a origem do mal, que nos socorra Agostinho de Hipona, não está em Deus, no Estado, no outro. O mal está na ação do sujeito. De modo tal que Agostinho diz que o mal não é, ou seja, o mal é um não-ser, uma privação do ser, uma privação de luz. Nesse sentido o mal acontece onde o bem não se realiza. E isso por pura omissão do sujeito. O que pretendo dizer, e agora fazendo referência direta ao trabalho cênico O Cara Preta, é que a violência, uma das formas do mal, e que é eixo temático do espetáculo, traz para o sujeito-espectador uma condição de escolha: reconhecer-se ou não ante tal violência - estamos falando em reconhecimento, o que significa visitar e realizar, mais uma vez, ações que já realizara, com ou sem consciência – Reconhecer porque, nas personagens, na narrativa e na ação, estão contidos elementos essencialmente nossos, humanos, algum tipo de reminiscência, pra ser um pouco agostiniano.
Vejo, portanto, que o espetáculo retrata condições humanas, estados. Isto porque o ser humano está submetido ao movimento da existência [espaço-temporal], ao devir, de modo que toda ação ou condição é efêmera, é de fato condicional e não engessada, pronta e imutável. Nesse raciocínio, ouvir alguns adjetivos do tipo “grotesco”, como fora dito pelo público logo que findo o espetáculo me faz pensar: Grotesco? Não creio. Talvez, revelador. Talvez revelador seja a palavra, afinal, a violência e a marginalidade mostradas no espetáculo são condições humanas e nada há de mais humano do que o mal para sustentar as diferenças e as relações de poder. O problema é que as pessoas da nossa pós-modernidade estão cegas, se fazem cegas para ignorar realidades vivas. Por pouco não fui uma daquelas personagens. Conheço estas histórias, transito por estes espaços, por essas gentes.
É preciso ampliar o ponto de vista desta sociedade que só vê o mundo de uma janela alta de um prédio qualquer. O mundo tem outras perspectivas e uma delas é a perspectiva do mal, donde se vê o mundo sob pernas e pés que pisoteiam, sob o olhar repulsivo que, assim como o corpo, lança a moral ao chão, e diminui e enfraquece. Se tem gente oprimida escondida por debaixo de caixas de papelões e latas de carvão flamejante, gente muitas vezes invisível, tem também gente opressora, que esmaga, vestida de óculos que colorem tanto as cidades que o cinza e o barro da pobreza se anulam, desaparecem.
São elogiosos meus pensamentos sobre O Cara Preta, uma das melhores encenações que vi. E não poupo extensões destes elogios ao trabalho do ator que é crível, na medida justa para que o espectador possa interpretar e ver, entre si e o ator, a ação viva da personagem. No entanto, interessa-nos mais a obra do que o trabalho das partes que a criam e, nesse sentido, é bom que esta obra visite e possa ser vista por um grande número de pessoas, de modo que seu conteúdo possa ser desvelado e refletido pela sociedade como um todo, pelos seres que se realizam nesta sociedade, onde vivem nobres e merdas, loucos e lúcidos e toda sorte de caracteres, e não se reduza a um público de um olho só, que vive na janela vendo o mundo de um lado só e se auto-intitulando erudito, cidadão, artista. Artista de merda, que tem medo da verdade, que só diz palavras por uma boca cheirosa e escovadinha com Tandy, cujas palavras só têm a força [vitaminada] de chegar ao playground dizendo repetidos e coloridos contos de fadas. É preciso desvelar, é preciso que a arte dialogue com seu povo na linguagem de seu tempo. O Cara Preta faz tudo isso e deve pretender ocupar lugares na sociedade e no pensamento a fim de promover pontos de vistas sobre a realidade que está aí, sob nossos pés e que muitos de nós fazemos questão em não reconhecer.
Mas a origem do mal, que nos socorra Agostinho de Hipona, não está em Deus, no Estado, no outro. O mal está na ação do sujeito. De modo tal que Agostinho diz que o mal não é, ou seja, o mal é um não-ser, uma privação do ser, uma privação de luz. Nesse sentido o mal acontece onde o bem não se realiza. E isso por pura omissão do sujeito. O que pretendo dizer, e agora fazendo referência direta ao trabalho cênico O Cara Preta, é que a violência, uma das formas do mal, e que é eixo temático do espetáculo, traz para o sujeito-espectador uma condição de escolha: reconhecer-se ou não ante tal violência - estamos falando em reconhecimento, o que significa visitar e realizar, mais uma vez, ações que já realizara, com ou sem consciência – Reconhecer porque, nas personagens, na narrativa e na ação, estão contidos elementos essencialmente nossos, humanos, algum tipo de reminiscência, pra ser um pouco agostiniano.
Vejo, portanto, que o espetáculo retrata condições humanas, estados. Isto porque o ser humano está submetido ao movimento da existência [espaço-temporal], ao devir, de modo que toda ação ou condição é efêmera, é de fato condicional e não engessada, pronta e imutável. Nesse raciocínio, ouvir alguns adjetivos do tipo “grotesco”, como fora dito pelo público logo que findo o espetáculo me faz pensar: Grotesco? Não creio. Talvez, revelador. Talvez revelador seja a palavra, afinal, a violência e a marginalidade mostradas no espetáculo são condições humanas e nada há de mais humano do que o mal para sustentar as diferenças e as relações de poder. O problema é que as pessoas da nossa pós-modernidade estão cegas, se fazem cegas para ignorar realidades vivas. Por pouco não fui uma daquelas personagens. Conheço estas histórias, transito por estes espaços, por essas gentes.
É preciso ampliar o ponto de vista desta sociedade que só vê o mundo de uma janela alta de um prédio qualquer. O mundo tem outras perspectivas e uma delas é a perspectiva do mal, donde se vê o mundo sob pernas e pés que pisoteiam, sob o olhar repulsivo que, assim como o corpo, lança a moral ao chão, e diminui e enfraquece. Se tem gente oprimida escondida por debaixo de caixas de papelões e latas de carvão flamejante, gente muitas vezes invisível, tem também gente opressora, que esmaga, vestida de óculos que colorem tanto as cidades que o cinza e o barro da pobreza se anulam, desaparecem.
São elogiosos meus pensamentos sobre O Cara Preta, uma das melhores encenações que vi. E não poupo extensões destes elogios ao trabalho do ator que é crível, na medida justa para que o espectador possa interpretar e ver, entre si e o ator, a ação viva da personagem. No entanto, interessa-nos mais a obra do que o trabalho das partes que a criam e, nesse sentido, é bom que esta obra visite e possa ser vista por um grande número de pessoas, de modo que seu conteúdo possa ser desvelado e refletido pela sociedade como um todo, pelos seres que se realizam nesta sociedade, onde vivem nobres e merdas, loucos e lúcidos e toda sorte de caracteres, e não se reduza a um público de um olho só, que vive na janela vendo o mundo de um lado só e se auto-intitulando erudito, cidadão, artista. Artista de merda, que tem medo da verdade, que só diz palavras por uma boca cheirosa e escovadinha com Tandy, cujas palavras só têm a força [vitaminada] de chegar ao playground dizendo repetidos e coloridos contos de fadas. É preciso desvelar, é preciso que a arte dialogue com seu povo na linguagem de seu tempo. O Cara Preta faz tudo isso e deve pretender ocupar lugares na sociedade e no pensamento a fim de promover pontos de vistas sobre a realidade que está aí, sob nossos pés e que muitos de nós fazemos questão em não reconhecer.
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