13.3.11

Peito cheio, folha vazia

Embora vastos os sentimentos
pouco posso fazer para parí-los
na fisicidade da palavra.
Descontento-me com todos eles, aqui,
presos num peito de aço.
Alegra-te, porém, já que eles estão
no lugar onde deveriam estar,
encerrados numa caixa torácica forte,
palpitando num peito que gera força
e movimento num corpo analfabeto,
sem papel nem lápis, mas com gestos
que dizem, revelam e fazem aquilo
que palavra alguma é capaz de fazer.

6.3.11

Vozes Dissonantes




Ontem pude assistir às Vozes Dissonantes, ditas, escritas e interpretadas por Denise Stoklos[1] e são várias as vozes que se ouve neste espetáculo.

A primeira delas é a voz da atriz, a qual ouvimos com vários sentidos. Assistir a uma atriz experimentada e comprometida com seu ofício, com sua aretê, modifica consideravelmente nosso estado na condição de espectador. Há um fluxo de trabalho no qual técnicas, criatividade, inteligência e poesia se relacionam de maneira tal, que percebemos a atriz tão íntegra, e tudo, tudo o que se diz, se move ou se silencia passa a nos comunicar e significar muito. Há uma estrutura espacial que Denise mantém e nela enreda e nos conta todas as histórias concentradas numa linha do tempo que perpassa do homo-erectus ao homo-sapiens numa linha rápida, num “fio de cabelo”. Neste espaço as personalidades, os guerreiros de lutas gloriosas, as vozes caladas no fio da história ousam falar. E estas são as outras vozes que vale a pena ouvir.

São vozes que denunciam, que relatam e se inconformam com uma série de desgraceiras que nos acometem nos tempos mais diversos e, de um modo ou de outro, lutam suas lutas de glórias. Vê-se ali símbolos do humanismo, do amor. Tiradentes, Dom Helder Câmara, Frei Beto, e outros de quem nunca pude ouvir falar. Oprimindo, do outro lado, políticos, governos, colonizadores, artistas – se assim se pode chamar a quem aparece na TV exibindo o cú ou um par de peitos murchos siliconados – a mídia, a indústria cruel da beleza e tantos outros opressores quase invisíveis, de nosso e de outros tempos.

Forma e conteúdo se justapõem de modo peculiar, ao menos, raro de ver nos palcos de BH, aliás tudo por aqui tem sido tão igual – o mesmo um terço de dúzia “fazendo dramaturgia”, ou um terço de dúzia “fazendo luz, cenário”, outro um terço, esse de três mesmo, captando recur$os de lei e, na bem da verdade, meia dúzia de panelas num fogão que já não esquenta mais.

Isso de assistir a um bom espetáculo nos move e nos mostra como estamos distantes de um trabalho menos interessado, ou interesseiro, e nos revela, a quem quer ver, que há muito o que criar usando como elemento empírico o nosso cotidiano, a nossa estrutura social e política, as nossas mazelas e a nossa distância afetada que temos de tudo isso. Temos analisado estas questões sim, mas de longe, à distância, como que médicos herméticos em suas indumentárias analisam um corpo doente.

De todo modo, fico ainda com uma questão. Como dizer destas críticas às pessoas que talvez e de fato devam ouvi-las? Como dizer sobre alienação, imbecilidade, comodismo e insurreição a quem de fato é alienado, ignorante, censurado e não tem acesso ao espetáculo teatral – inteligentíssimo – que critica a sociedade repressora e é feito pra ela, fala com ela e dela necessita entendimento? Eu entendo o que Denise diz, tenho ensino-médio completo quando ainda havia alguma dignidade na escola pública, leio a grande e a pequena mídia, faço parte de uma estatística que diz que ascendo à classe média – sei que devo à classe média – tenho internet em casa, duas dúzias de livro de arte e filosofia, um Visa que me dá pouco do quero e me exige muito do que não quero dar: meu tempo, meu ócio. São vários os níveis de alienação, alguns se permitem ver as próprias condições, outros nos cegam severamente. Portanto, se este tipo de crítica permanece preso numa das grades do estamento, ela não diz nada, ou, antes, diz para si. As vozes dissonantes comunicam entre si, solitárias, tautologicamente. No entanto, há uma esperança de que alguma destas vozes vaze, que faça algo, que vocifere, que diga, no mundo, aquilo que pode fazer com as próprias mãos.



[1] Atriz paranaense. Começou sua carreira como autora, diretora e atriz em 1968. http://denisestoklos.uol.com.br/. Em 06/03/2011,11h50.