18.7.11

Antes do Silêncio - Percepções

Fácil entregar-se e entreter-se com Antes do Silêncio. Afora minha velha admiração pelo ator Rodolfo Vaz – pelo ator e sua ação, sua técnica e sua arte –, depois pelo diretor Eid Ribeiro que a cada obra que vejo, percebo ainda mais sua sagacidade – outro dia ouvi um de seus textos intitulado Lágrimas de um guarda-chuva. Irônico - e destreza para conduzir suas peças, Antes do Silêncio é uma obra gostosa de ver, que causa a nós, mera platéia, quase uma inanição, um certo acomodar-se estático para ver aquilo se revela.




Muito embora o espetáculo tenha tons bastantes cinzas, escuros, quase sem cor, é de uma beleza revigorante para quem gosta, no teatro, de atores. Do início ao fim é possível perceber uma presença teimosa do ator que mostra perfeito domínio de suas ações, de seu pensamento, do espaço, de sua voz e de todo o contexto que se lhe avizinha.


Imenso. A primeira cena em que o ator se revela, de costas, ele parece ser um homem gordo, imenso, mas não. Antes é uma presença imensa que, a partir dela, não mais desgrudamos os olhos de cada um de seus passos, de cada som de sua voz, como se ela já existisse previamente, como se ela já estivesse ali, o tempo todo. É bom ver um texto fodido, simples, bairrista, na boca de um bom ator. Chato é ver ator medíocre declamando poesias construídas com dicionário de sinônimos dizer, dizer e dizer palavras mortas que não querem estar ali, naqueles lábios. Tem palavra que nasceu para ficar no papel.




O amor deve ser de fato algo muito belo, embora para Becket e os artistas que compuseram a obra, amar seja venenoso. Essa dialética é o grande conflito da peça, narrada em primeira pessoa, como num causo, a cortinas abertas, pelo ator. A diferença do amor para o gesto difícil e angustiante de amar se revela na beleza ímpar da formosa Lulu. Lulu é linda, é aquela mulher que esperamos por ela mas nunca a encontramos. É a mulher que só existe em nossas cabeças. Lulu representa não só o amor mas também aquilo que pode ser amado, desejado, querido, comido, gozado, depois cuspido e vomitado. Papel difícil para qualquer atriz.



O que se vê é um homem fraco, desgostoso e fedido, que se esconde de si, encontrar-se amando, encontrar-se com o amor transmutado numa mulher esguia, fantasia, numa púbis que chama, que imobiliza – até a nós, mera platéia – encontrar-se aos solavancos, num abraço sutil, promíscuo e delicioso.



Sobre essas coisas de amor, de amar, não dominaremos nunca. Não há fonte e não há fim que justifique nossa vulnerabilidade diante do amor. Amar em silêncio, apenas.

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