Ou estou ficando velho e rabugento ou o fato de ser um ator sem palco, sem texto e sem vida faz de mim uma voz que, não raro, desagrada alguns ouvidos. Resultado de um drink inebriante com doses de dor-de-cotovelo, comodismo, perfeccionismo e rigor inatingível.
Mesmo assim, e agora de maneira diferente, dissipo meu hálito etílico para dizer as boas novas, para dizer de um outro lado cheio de graça e de vida. Neste domingo, 30, assisti ao espetáculo Outro Lado, desta Cia. Quatroloscinco sobre a qual, até então, eu nada conhecia, embora os atores fossem já velhos e bons conhecidos.
Embora pareça raso, o que posso dizer é que gostei. Que gostei muito. Que gostei demais. Mas por quê? Nunca gosto de quase nada...
Bom, isso tem explicação. Primeiro o ambiente ficcional – ainda que não inicialmente - já me pareceu aconchegante. Gosto de bares soturnos. Gosto das pessoas curiosas que habitam estes lugares. E nesta peça, as quatro personagens são deveras curiosas, inacabadas, sem futuro e com uma pouca memória do passado que mais parece sonho do que história e, além disso, habitam realmente aquele bar. Eles não tinham casa, não tinham nada. O tom escuro das cenas trazia um ambiente vazio de cacarecos cênicos, mas cheio de tensões. Os atores cumpriram seus papéis. Texto, atuação e plasticidade combinavam para uma dramaturgia – possivelmente de origem caótica já que as referências são tantas – una, em linha e, principalmente, com uma história de pano de fundo do mundo da vida. - Chega de caos na cena em que nada se diz! Se for caótico o processo, que seja. Isso é bom, mas, obra caótica nunca gostei. Contemporâneo demais incomoda porque flutua. E artista tem que ter o pé no chão, ainda que seja a lua o lugar de sua cabeça superativa. –
Todo o universo ficcional, sustentado pelas imagens e projeções dos atores na beleza do texto simples e sem palavras difíceis – também não aguento mal-ator dizendo palavras belas, sinonimadas de algum dicionário clássico de português arcaico... prefiro ler poema - pois bem, Outro Lado tem essa boa característica de equilibrar texto e ação, espaço ficcional e imaginação de modo muito polido, cuidadoso e bem tratado. Foi muito bom passar algumas horas dentro daquele bar com aquelas pessoas, ouvindo aquelas histórias que podiam ser outras, ou outras combinações diversas daquelas que lá vivenciamos. Foi bom conhecer aquela trama pela voz das personagens que pouco nos revelavam sobre um mundo que explodia do lado de fora. Essa tensão foi crucial e me manteve atento.
Bom o trabalho dos atores que construíram suas personagens – pra mim são personagens – com critérios, e que jogavam com cenas bem dispostas e bem dirigidas dando um fluxo nada contido, nada extenso, à história e ao tempo que se passava. Destaco o trabalho de Ítalo: consistente, gradativo, tocante. A cantora, ah, a cantora. Traria, ambas, criadora e criatura, para cantar no meu jardim, mas não posso agora, cantora! Tomorrow, sem falta, te levo pra casa!
Me deliciei, me incomodei com o início da peça tão “bifurcado” ou caótico mas que se desenvolveu tão bem e culminou naquele fim pesado, cheio de medo e de morte, quando a cantora, no som de uma nota Pam teve seu corpo morto num Plim, com o braço em queda, estatelando-se da vida. Acabou. Chegou o dia becktiano que parecia não chegar jamais.
Linda a peça. Bati palmas até doer as mãos.
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Mas que diabo foi aquilo de voltar a falar e a querer mais peça? Acabou, meus queridos. No meu ponto de vista, com isso, vocês valorizaram uma técnica em detrimento da arte. Nada mais se pedia. Desnecessário. Não precisava daquele abstract, daquela conclusão de cento-e-quarenta caracteres para a peça linda que acabara de se passar. Não expliquem a piada! Se ri, ri, se não ri, ou sou loira ou rio quando entender.
Se foi pra exibir uma técnica épico-dramática, ou pra romper com uma parede – que nunca existiu, pois a própria disposição de nós, público, plástica e dramaturgicamente era de convivência e cumplicidade – não me pareceu tão necessária. Talvez eu tenha lido mal esta intenção. O que saliento é que eu já havia desistido de comer a pipoca na saída do teatro e, cheio de gozo, queria ir pra casa pensar e digerir tudo aquilo que bebi naquele bar. A voz que se levantou no escuro final da cena foi uma luz lançada sobre uma imaginação que necessitava do escuro para pintar livre as cores daquela história. Excesso de luz cega tanto quanto o silêncio na escuridão.
Beijos, merdas, palmas.
Clecio Luiz