15.3.18

#mariellefranco #mariellepresente



Sempre que uma nova voz ecoar na sociedade, clamando por justiça, por direitos, por igualdade e por respeito às vidas humanas, será a morte que a calará? Até quando vamos tolerar que termine em fatalidade aquilo que deveria ser apenas uma prática política, apenas uma luta por igualdade? Afinal, não é isso a política, a igualdade entre os cidadãos?

O assassínio de lideranças políticas, oriundas e pertencentes às minorias, tem se tornado um artifício – recalcado pela mídia dominante – de silenciar estas vozes dissonantes que lutam sem medo pela fundamental igualdade política. Não é raro vermos a intolerância assassina contra estas vozes: em 1968 os militares tiraram de nós o estudante Edson Luís, em 1969 a política militarista assassinou Marighella, vimos tombar Chico Mendes em 1988, assistimos ao massacre de Carajás em 1996, ao assassinato covarde de Dorothy Stang em 2005. Isso para registrar aqui apenas os casos mais emblemáticos. Recentemente assistimos à covarde difamação e calúnia ao reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que o levou à morte em 2017.
Quantos tantos outros e outras foram caladxs nas ruas e nos porões dos comandos militaristas? Quantos foram caladxs e nós, em silêncio, não ouvimos nada? 

A luta de Marielle Franco, cidadã, vereadora do PSOL, partido político de esquerda, representante da periferia na câmara carioca, líder da minoria, mulher, negra, não pode ter sido em vão. Marielle foi mais uma vítima do abusivo poder militar. Ela, que acompanhava de perto a atuação militar na Intervenção Militar proposta pelo governo ilegítimo, ela, que denunciou na última semana casos de violência policial em Acari, no Rio de Janeiro, foi tirada de cena, a tiros. Assassinaram nossa guerreira. O tom é acusativo, afinal, não seria inteligente pensar em má sorte, coincidência, acaso, ou no desfecho infeliz da roda da fortuna. Não falamos aqui de mais um crime comum – veja que tristeza de tipificação: “comum” – na cidade do Rio de Janeiro que vem tirando vidas, corriqueiramente, de trabalhadorxs e estudantes, muitxs por balas perdidas, outrxs, sendo friamente executados. No entanto, investigações de crimes contra os pobres não geram dividendos na indústria dos tribunais e terminam onde estão: nas sepulturas.

A notícia é triste e reveladora: a intolerância com a diversidade política que acerca de 4 anos vem se instalando no nosso país é preocupante. A polarização – que é uma estratégia da elite dominadora – entre o povo pobre, as políticas públicas de combate à pobreza, em favor da dignidade humanas, por um lado, vem sendo, por outro, constrangida por vozes de opressão e intolerância, exigentes por uma manutenção de privilégios que não faz mais sentido. O custo da disparidade social que pretende reduzir a classe média tem sido alto, tem custado vidas, tanto pela carência e cortes de políticas públicas, quanto pelo silenciamento criminoso das vozes dissonantes. Uma espécie de facismo ronda a América Latina em pleno século XXI.

De todo modo, Marielle nos deixa um legado. Assitir hoje pela manhã a milhares de manifestos e homenagens a ela pelas redes sociais, muitas delas sendo feitas por pessoas que, ao menos aparentemente, não dedicam tempo à política em seus narcisos perfis, tem sido recalcitrante. Algo acontece, e mobiliza-nos a todos. Os tempos sombrios de hoje exigem de nós uma prática política, tão esquecida, tão tirada de nós ao longo de tantas décadas de opressão por parte das elites. É preciso impedir que as elites continuem a usar a máquina do Estado para a dominação e útil manutenção da pobreza. É preciso impedir que as elites continuem utilizando-se das forças policiais para manter erigidos os limites e muros que dividem a cidade e separam uns, de outros. É preciso impedir a elite que continue a dominar os meios de comunicação transformando as tragédias da vida cotidiana em espetáculos novelescos e sem valor.

Façamos coro ao protagonismo lindo e exemplar de Marielle Franco. Certamente, o que ela quererá de nós, será a coragem de seguir em frente na luta e no denuncismo das forças opressoras.