Sempre
que uma nova voz ecoar na sociedade, clamando por justiça, por direitos, por
igualdade e por respeito às vidas humanas, será a morte que a calará? Até
quando vamos tolerar que termine em fatalidade aquilo que deveria ser apenas
uma prática política, apenas uma luta por igualdade? Afinal, não é isso a
política, a igualdade entre os
cidadãos?
O
assassínio de lideranças políticas, oriundas e pertencentes às minorias, tem se
tornado um artifício – recalcado pela mídia dominante – de silenciar estas
vozes dissonantes que lutam sem medo pela fundamental igualdade política. Não é
raro vermos a intolerância assassina contra estas vozes: em 1968 os militares
tiraram de nós o estudante Edson Luís, em 1969 a política militarista
assassinou Marighella, vimos tombar Chico Mendes em 1988, assistimos ao
massacre de Carajás em 1996, ao assassinato covarde de Dorothy Stang em 2005.
Isso para registrar aqui apenas os casos mais emblemáticos. Recentemente
assistimos à covarde difamação e calúnia ao reitor da UFSC, Luiz Carlos
Cancellier, que o levou à morte em 2017.
Quantos
tantos outros e outras foram caladxs nas ruas e nos porões dos comandos
militaristas? Quantos foram caladxs e nós, em silêncio, não ouvimos nada?
A luta de
Marielle Franco, cidadã, vereadora do PSOL, partido político de esquerda,
representante da periferia na câmara carioca, líder da minoria, mulher, negra,
não pode ter sido em vão. Marielle foi mais uma vítima do abusivo poder
militar. Ela, que acompanhava de perto a atuação militar na Intervenção Militar
proposta pelo governo ilegítimo, ela, que denunciou na última semana casos de
violência policial em Acari, no Rio de Janeiro, foi tirada de cena, a tiros.
Assassinaram nossa guerreira. O tom é acusativo, afinal, não seria inteligente
pensar em má sorte, coincidência, acaso, ou no desfecho infeliz da roda da
fortuna. Não falamos aqui de mais um crime comum – veja que tristeza de
tipificação: “comum” – na cidade do Rio de Janeiro que vem tirando vidas,
corriqueiramente, de trabalhadorxs e estudantes, muitxs por balas perdidas,
outrxs, sendo friamente executados. No entanto, investigações de crimes contra
os pobres não geram dividendos na indústria dos tribunais e terminam onde
estão: nas sepulturas.
A notícia
é triste e reveladora: a intolerância com a diversidade política que acerca de
4 anos vem se instalando no nosso país é preocupante. A polarização – que é uma
estratégia da elite dominadora – entre o povo pobre, as políticas públicas de
combate à pobreza, em favor da dignidade humanas, por um lado, vem sendo, por
outro, constrangida por vozes de opressão e intolerância, exigentes por uma
manutenção de privilégios que não faz mais sentido. O custo da disparidade
social que pretende reduzir a classe média tem sido alto, tem custado vidas,
tanto pela carência e cortes de políticas públicas, quanto pelo silenciamento
criminoso das vozes dissonantes. Uma espécie de facismo ronda a América Latina
em pleno século XXI.
De todo
modo, Marielle nos deixa um legado. Assitir hoje pela manhã a milhares de
manifestos e homenagens a ela pelas redes sociais, muitas delas sendo feitas
por pessoas que, ao menos aparentemente, não dedicam tempo à política em seus
narcisos perfis, tem sido recalcitrante. Algo acontece, e mobiliza-nos a todos.
Os tempos sombrios de hoje exigem de nós uma prática política, tão esquecida,
tão tirada de nós ao longo de tantas décadas de opressão por parte das elites.
É preciso impedir que as elites continuem a usar a máquina do Estado para a
dominação e útil manutenção da pobreza. É preciso impedir que as elites
continuem utilizando-se das forças policiais para manter erigidos os limites e
muros que dividem a cidade e separam uns, de outros. É preciso impedir a elite
que continue a dominar os meios de comunicação transformando as tragédias da
vida cotidiana em espetáculos novelescos e sem valor.
Façamos
coro ao protagonismo lindo e exemplar de Marielle Franco. Certamente, o que ela
quererá de nós, será a coragem de seguir em frente na luta e no denuncismo das
forças opressoras.
